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Dane-se as tendências



Fechar os olhos para algumas coisas ridículas que sou obrigada a ver. Conseguir escrever ouvindo músicas no meu fone azul, que eu mesma fiz. Até consigo as vezes. ( Agora estou ouvindo Mexico da banda The Staves!). Conseguir falar mais com as pessoas enquanto faço outras coisas. Parar de apagar tudo que eu escrevo achando que está "zuadinho". Falar e treinar mais meu inglês. Aproveitar as pessoas maravilhosas que tenho ao meu lado e simplesmente amassar e jogar no lixo aquelas pessoas que me irritam. Não me importar mais com os comentários idiotas e críticas que não me ajudarão em nada. Gritar tudo o que me dá vergonha, medo ou insegurança. Chorar mais ouvindo aquela música linda. Chegar e falar tudo o que sinto por ele. Conseguir emocionar as pessoas e fazerem elas sentirem a mesma emoção que eu estou sentindo agora! ( A música mudou, agora é Winter Trees, também do The Staves!).

Abraçar ele mais forte. Sim ele. Faze-lo chorar, mas por que eu disse algo bonito. Ver um homem chorar na minha frente, só para ter certeza de que nem todos os homens são orgulhosos! Quero emociona-lo e ver uma lágrima rolando até cair no chão.

Baixar todas as músicas do Artic Monkeys e depois ficar ouvindo sem parar, até não aguentar mais ouvir a voz do Alex Turner. Parar de ouvir a mesma música sempre, e mudar o toque do meu celular. Ir no show de alguma banda que eu goste. Fazer alguém tocar violão para mim. Mas só para mim. Aprender um pouquinho, e conseguir tocar pelo menos uma música. Quero sentir orgulho de ter me superado. Comprar uma camisa floral (está na moda!), e também o violão. Parar de pensar nas tendências desse verão e fazer todas essas coisas que falei virarem a minha.

 Floral nada, longe disso, esse verão a minha tendência é ser mais estilosa e bonita por dentro. Isso mesmo! Tendência própria. E fora? Que se dane. E dane-se junto a camisa floral que eu queria


O homem engravatado



Pessoas sem nenhuma orientação. Sorrisos tristes. Coisas largadas. Chão sujo. Lá estava eu, andando pelo lugar mais triste que eu poderia ver. Logo eu, acostumada com tudo o que eu queria na hora, sorrisos felizes, um lugar para me confortar e pessoas que tinham até mais que eu do meu lado.

Estava eu, na parte mais pobre da cidade, onde qualquer coisa era muito pouco se comparado com o que eu tinha. Um amigo me disse que precisava conhecer o oposto da minha realidade. A pobreza.

Um homem passou por mim com terno e gravata, gel no cabelo, cheiroso e com uma mochila nas costas. Na minha frente gritou para uma criança "Calma, eu já venho,filho!". O menino de uns cinco anos começou a chorar e desesperadamente foi correndo para os braços do homem. Que disse baixinho no seu ouvido "Preciso trabalhar, filho. Desde que sua mãe virou uma estrela só eu posso sustentar a casa e pagar tudo o que você precisa!".

Comovente o esforço de um pai, com um filho de cinco anos que já não tinha sua mãe. Decidi ajudar. Não poderia ficar de braços cruzados em frente aquela situação. O menino aparentemente começou a passar mal, e com isso o pai gritou desesperado "Ele tem asma! Me ajudem! Me levem para o hospital!".

Meu pai era dono do hospital. E mesmo sendo meio longe, fiz questão de os colocar no meu carro e ir correndo para lá. O menino estava realmente ruim e com a qualidade do SUS era quase ridículo o levar para algum hospital público.

Depois de ter feito toda a gentileza que fiz, o homem me agradeceu com brilho nos olhos. Me disse que tinha terminado a faculdade de medicina. E que precisava de um emprego. Conversei com meu pai e ele tomou algumas decisões.

Alguns anos se passaram, e eu esbarrei com um homem de terno que gritava para uma criança "Calma, eu já venho!". Me emocionei. Como uma pessoa poderia se tonar tão maravilhosa. As vezes só precisamos de uma chance. E me lembrei que naquela época eu queria um carro novo, e aquele homem estava saindo de casa para conseguir um emprego para alimentar seu filho. Hoje ele é o supervisor da ala de câncer infantil. E ver aquela cena de um homem engravatado gritando para uma criança me fez lembrar o quanto aquela situação á alguns anos, tinham sido boas para mim, para ele e para todas aquelas crianças que pediam para ele não ir embora. Se não fosse aquele homem engravatado eu talvez estaria querendo um carro novo e apenas pensando em mim


Ele ainda está com você


Um menino normal, dezessete anos, cheio de vida. Jogava futebol aos sábados com os amigos, comia pizza todos os domingos na casa do irmão mais velho. Tirava notas boas, mas em português era péssimo. Namorava uma menina bonita, loira, com olhos bem escuros, pele clara e sorriso branco. Iam todos os dias comer sorvete depois da escola. 

Dois meses se passaram, e o menino ficou doente. Não jogava mais futebol aos sábados, nem comia pizza aos domingos, continuou tirando as notas ruins em português, mas dessa vez por outros motivos. Ficava mais doente todos os dias. Cada dia mais magro, cada dia mais para baixo. Quando nenhuma menina o queria, sua namorada estava ai, como se não houvesse nada mais importante.
O menino foi morrendo aos poucos, e cada vez mais a família perdia suas esperanças, mas sua namorada não, continuou do seu lado. 

Conversei algumas vezes, mas nada de mais. Me disse "oi" algumas vezes e eu respondi todas elas. Conversei um pouquinho, e até saímos juntos, por causa dos amigos em comum. 

Numa manhã, sem graça, de sábado o telefone tocou. A frieza que a morte deixa chegou aos seus lábios, o óbito foi confirmado, a dor ficou mais funda e as lágrimas escorreram. Mesmo não sendo próxima, eu não sabia lidar com a morte. A menina chorou, e chorou mais. Mas parecia ainda estar com ele.

Fiz questão de ir ao velório. Chegando na porta, não resisti. As lágrimas caíram mais tristes, e aquela imagem me deixavam cada vez mais morta. Morta por dentro. Só de ver a morte na minha frente. Sentei na porta. Chorei. 

Sua namorada sentou do meu lado. Parecia não ter mais lágrimas. Me disse que estava grávida. Me espantei. Inevitável. Mesmo com a tristeza, entendi o motivo da menina de achar que ele ainda estava com ela. Ela não só achava. Ele estava com ela. Mesmo sabendo que ele nunca mais iria jogar futebol aos sábados, nem comeria pizza aos domingos, a felicidade tinha um espaço. Ele estaria para sempre com ela. No seu coração. 

Bonito porém burro - ( parte II - final )



A banda devia ter acabado de começar a tocar. Lembrei que quando tinha meus quinze anos queria ver os shows do meu amigo, que por sinal era bem mais velho. Eu não aparentava ter a idade que tinha, parecia ser mais velha. Para falar a verdade, ele não era só meu amigo, mas tudo bem. O abraço dele era o melhor, sem dúvidas. O baterista era bem parecido com o aquele amigo BH, e coincidentemente também tocava bateria.

Queria chegar mais perto dele, para ver seu rosto direito. E acabar tirando minhas próprias conclusões de que ele era ou não parecido. Aquela luz baixa e a falta dos meus óculos estavam me fazendo enxergar tudo muito mal. Não coloquei meus óculos naquela noite para ficar mais bonita para o surfistinha de merda. Acabei não colocando minhas lentes, já que achava a coisa mais horrível do mundo, sem contar que me irritava a ponto de querer me jogar de um prédio.

A banda deu uma pausa, ou talvez ainda estavam apenas passando o som antes do show "oficial" começar. Ainda era cedo, e o PUB estava meio vazio.

Mas aquele baterista não era nem um pouco bobo. Logo que a pausa foi iniciada se sentou ao meu lado. Foi nessa hora que eu quase vomitei meu coração, meu fígado e todas as palavras que eu tinha guardado durante anos.

" Leo??? ". Não acreditei, era o tal cara de BH. Fiquei sem palavras. Ele parecia não acreditar, e eu por motivos claros não consegui dizer mais nada. Perdemos o contato, mas mesmo assim, era bem maluca por ele. " Você namora? É casada? Ou sei lá?". Fiz que não com a cabeça. Ele se aproximou, colocou uma mão no meu rosto e a outra gentilmente na minha coxa. Com a mesma gentileza meus lábios se abriram. Fiquei realmente sem palavras. Como alguém conseguia beijar tão bem?

E aí, destino? Logo você que nunca foi legal me deu como um presente tantas emoções em uma noite só? O que está querendo comigo?

"Eu ainda te amo, Mari!". Não teve como não ter vontade de chorar, meus olhos encheram de lágrimas, e uma mexa do meu cabelo caiu sobre meu rosto. "Você continua igualzinha!". Não entendi em qual sentido eu continuava igual. "Como assim, Leo?". Perguntei com vontade de agarra-lo e nunca mais deixa-lo sair de perto de mim. Ele sorriu, e em quanto tirava meu cabelo do meu rosto, falou baixinho com aquela voz maravilhosa: " Seus olhos ainda brilham, como antes, e seu cabelo continua caindo no seu rosto.".

Eu não tinha conseguido nem falar direito. Ele ainda lembra que meus olhos brilhavam, e brilham. Não sei. Provavelmente, deixar o surfistinha, e entrar exatamente naquele pub, foram as melhores escolhas que já fiz.
Ok, ele queria mesmo me fazer chorar. Saquei.

" Ei Leo, vamos começar!". O vocalista da banda o chamou. Eu e muito menos ele tínhamos visto a hora passar, já eram quase nove da noite e o pub estava cada vez mais cheio. Ele me deu mais um beijo, e foi para o palco. Os outros caras da banda deram uns sorrisinhos, típicos de "macho". Como todos eles são estranhos! Parecem que sentem orgulho dos amigos.

Depois de um tempo, o show acabou e ele veio falar comigo, mais perfeito do que nunca. " Linda, vamos sair e matar a saudade!". Fomos para a praia e começamos a andar pela beradinha do mar. Foram quase quatro anos sem se falar e impressionantemente eu ainda sentia algo inexplicável. Eu ainda amava-o e já tinha até esquecido como era sentir tudo aquilo.

Depois de me explicar tudo, fiquei magoada. Inevitável não ficar quando alguém que você ama te conta que só ficou essa semana em Copacabana, e daqui a dois dias voltará para São Paulo, aonde ele morava agora. " Vem comigo, Mari?". Custei a intender, e acho que ele compreendeu diante da minha cara de ponto de interrogação. " Vamos para São Paulo comigo?".

Fiquei assustada. Seria loucura ir para São Paulo, e jogar para o ar tudo que eu já tinha conquistado no Rio. Mas pensando bem, eu gostava dele. Queria ficar do lado do Leo para sempre. " Leo, eu não sei. Tem a facul, minha irmã, meu sobrinho, tudo.".

" Mari, eu vou te fazer feliz, prometo!". Como negar? "Eu vou!". Acho que aquela era a cena mais linda que eu já tinha vivido. Ele me pegou no colo e me abraçou tão forte, que deu vontade de nunca mais sair dos seus braços.

O dia da viajem chegou, e junto com ele a decisão que mudaria a minha vida. Pela segunda vez juntei minhas tralhas, em busca da felicidade. Com ele, não ser feliz era impossível. Me apaixonei duas vezes na vida, e essas duas vezes pela mesma pessoa. Como não ser feliz com a pessoa que foi feita para mim?

Peguei minhas malas, entrei no avião com o baterista e o homem da minha vida.

Por Bia Bim

Bonito porém burro



Morei por longos e tediosos 18 anos em BH .Quando completei meus dezenove anos, dei tchau para minha família chata, juntei minhas tralhas e fui morar com minha irmã em Copacabana.

Larissa saiu de casa depois de engravidar com dezesseis anos. Sempre foi irresponsável, e é até hoje. Incapaz de impor limites no seu próprio filho. Marcelo, tinha quinze anos, chegava em casa no meio na madrugada, quase todos os dias, e não posso deixar de falar que aquilo me irritava bastante. Não entendia Larissa, parecia que contava os dias para Marcelo acabar engravidando sua namorada, que já tinha quase dezoito anos. Ele não era nem um pouco bobo, escolheu logo a mais, digamos, gostosa. Larissa parecia ingênua em certas horas, achava o que? Que eles ficavam jogando dominó ou dama? 

Certo dia, acabei conhecendo o irmão de Caroline, namorada do Marcelo. Meu Deus. Pouco tempo em Copacabana e já percebi que lá tinha muito cara bonito. Mas aquele, era de mais. Olhos verdes, que me fizeram marejar de tanto olhar no fundo deles, aparentemente malhado, jeito de surfista, mas muito, muito gato. Ele me olhou de um jeito, que por um instante até me senti meio sensual. Mesmo não sendo, e sabendo isso.

Cheguei da faculdade, já era quase uma da tarde. Enquanto procurava na minha bolsa as chaves escutei o elevador abrindo novamente. Ouvi uma voz, gostosa, que já tinha escutado antes, mas não reconheci de imediato. “E aí, paulistinha? Vamo saí hoje?”. Expliquei com vontade de gargalhar e também bater na cara dele, que eu era mineira. No dia que conheci ele falei umas quinze vezes de onde eu era, e ele continuava achando que eu sou paulista?

Sinceramente não estava com vontade de sair com ele. “Tenho que terminar um trabalho da faculdade!”. Não foi o bastante para ele, que insistiu mais uma e outras vezes. Depois de uma, quase, lavagem cerebral aceitei. E já bateu um arrependimento na hora. Não conseguia gostar de conversar com pessoas que falassem muitas gírias, ou falassem errado. E ele fazia tudo que me irritava de sobra.

Vamo aproveitá que ta mou calor!”. Dei uma risadinha, mas só para não ficar chato. “Passo aqui as sete. Vai gatona que eu te apresentá pros brother!”. Ele ia me apresentar por quê? Já quer me apresentar? Como assim? Ta achando o que, gatinho? Não tenho nada com você, não! E nossa, pelo menos ele sabe, ao menos, uma palavra em inglês!

Arrumei-me. Coloquei meu sapato de salto mais lindo. Estava linda, de verdade. Não sabia aonde ele ia me levar, mas tudo bem. Sentei no sofá para esperar. Sete horas passou, sete e meia também. Oito, quase em ponto ele tocou a campainha. Ele sabia como me irritar. “Nossa, se atrasou, né?”. Minha pergunta foi meio inconveniente, mas definitivamente, ele merecia. Ele disse com um pouco de vergonha. “Desculpa aí, achei que dezenove horas, eram seis da tarde, quando lembrei que era sete, já era oito. Vim correndo.”.

E a vontade de gargalhar e bater a porta na cara dele, aonde é que fica? Achei que era brincadeira, mas ele estava falando sério. Definitivamente, a expressão que diz que beleza e inteligência não combinam foi feita especialmente para ele. Poxa, queria alguém inteligente, ou de preferência com cérebro. Fomos para o carro, e ele até abriu a porta para mim. Pelo menos uma atitude boa. Uma música dos infernos começou a tocar mais conhecida, popularmente, como funk. Pelo amor!

Logo chegamos a uma “quebrada”. E aí sim não aguentei. Falei um monte, o que ele merecia. Eu realmente não tinha colocado meu salto, e nem minha calcinha mais bonita para ir á uma quebrada. Depois de tudo que terminei de falar ele ainda teve a cara de pau de falar “Mas calma, ainda ia te levar no baile!”.

Virei às costas, tirei meus sapatos do pé, segurei-os na mão e saí andando. Entrei em um PUB, no qual o som me agradava. Pedi uma dose de whisky, não que seja o mais correto. Sentei em uma cadeira, fiquei olhando o baterista lindo da banda. Isso sim era homem. Eu só queria um cara igual a ele. Eu até merecia, vai! Só quero alguém igual a mim, que curta rock, fale direito, e tenha um vocabulário inglês mais amplo.
Olhei nos olhos do baterista. Ele sorriu. Olha! Mas não é que valeu a pena ter colocado o salto.


Por Bia Bim